Cadeira 27: Nena Gonçalves

Nena Gonçalves

 

Josefa Gonçalves da Silva (Nena Gonçalves) é uma poetisa paraibana, nascida em 05 de setembro de 1953, no sítio Jucurutu, zona rural do município de São João do Tigre, que se situa geograficamente na região dos Velhos Cariris do estado da Paraíba. Filha de Possidônio Bezerra de Carvalho e Mariêta Gonçalves Cordeiro. Tendo seu pai se casado três vezes, constituiu, portanto, uma numerosa família de nove filhos. Do primeiro casamento nasceram José, Maria Anunciada e Isaura, da segunda união nasceram cinco filhos; Celina, Paulo, André, Gabriel (in-memória) e Josefa (Nena Gonçalves), e da terceira união nasceu Gabriel, o mais jovem dos irmãos.

A poesia sempre esteve presente na vida e nos sonhos de Josefa (Nena Gonçalves), apesar da oposição do seu pai em relação aos estudos para as filhas, pois achava desnecessário, o que era um pensamento comum para a época, a poetisa jamais abriu mão dos estudos, pois era o seu projeto de vida.

Em 1974, casa-se aos 20 anos de idade, com Manoel Missias, desta união nasceram seus três filhos; Andreia Lêda,  André Liesid  e Adilma Leiliane, seus sete netos: ítalo Perácio, ìcaro Péricles (in-memória), Iury, Iulyan, Ana Beatriz, Guilherme Luan, Laura Carele e uma bisneta; Ana Luiza. Apesar de constituir uma família numerosa, vive uma relação muito conturbada com o esposo, em detrimento aos seus escritos poéticos, os quais escrevia e guardava para evitar desavenças com o companheiro, após muitos enfrentamentos, o casal se separa em 10 de Julho de 2007.

A poetisa foi agricultora, comerciante e atendente nos Correios de São João do tigre por 13 anos, até que em 2002 saiu dos Correios para montar seu próprio comércio.

Após a separação conjugal, a poetisa passa a dedicar-se aos estudos, prestando vestibular para Língua Portuguesa em 2012, obtendo uma das melhores notas daquela prova, mas por não formar turma, migra para o curso de Pedagogia, concluindo sua licenciatura em 17 de novembro de 2015, no entanto, afirma que não tem interesse em lecionar, foi apenas uma realização pessoal. Em 2017, ingressa no curso Técnico de Agropecuária pela escola INTELECTUS, porém, por discordar com a forma de administração da escola, resolve deixar o curso após um ano de estudos.

Ao longo de sua vida poética, Nena Gonçalves escreveu poemas para as mais diversificadas situações, que vão desde versos soltos, participação em festivais, antologias poéticas, trabalhos acadêmicos e ainda atuou como locutora de programa de rádio, na Rádio Comunitária da sua cidade com o programa “O canto que o povo canta”, voltado para a cultura nordestina, até a publicação do seu livro de poesias no ano de 2012, NENA GONÇALVES, MEUS VERSOS, MINHAS SAUDADES, livro que contém 131 páginas, sendo composto por 129 poemas de sua autoria e o fechamento do livro com duas estrofes do poeta José do Jabitacá (Professor Balbino), de quem a poetisa muito se orgulha de ser amiga. O livro é uma produção independente, tornando-a a primeira escritora tigrense a publicar um livro de poesias.

Atualmente, Nena Gonçalves é aposentada, dedica-se inteiramente as atividades do lar e a sua grande paixão que é escrever seus sentimentos através da arte das palavras, a poesia. Não perde uma cantoria, um festival de violeiros e adora dançar forró, mostrando que goza de uma saúde invejável.

Patrono

 

Firmo Batista de Lima (Firmo Batista), nascido em Garanhuns-PE
no dia 01 de junho 1926. Poeta repentista, violeiro, escritor, joalheiro,
fabricante de alianças de ouro, trabalhava com fotografias e aplicações
fotográficas. Filho de João Batista e Júlia Feliciano.
Ainda criança de braço, veio com os pais para a fazenda Santa
Catarina, zona rural do município de Monteiro-PB. Seu pai era fugitivo da justiça e logo que chegou à fazenda embrenhou-se no mato, ficando conhecido como Zé do Mato, pelo fato de que poucas pessoas o via, já que ele procurava se esconder de todos.

Quando seu pai faleceu, Firmo ainda era adolescente, ficando com
a responsabilidade de ajudar sua mãe na criação dos seus 12 irmãos, já que era o mais velho da numerosa prole.

 

Foi para São Paulo ainda jovem, lá trabalhou em uma joalharia onde projetava e construía as joias em ouro. Chegando a trabalhar por muito tempo também nesta época, na Rádio ABC de São Paulo.

Depois de viver no sudeste por muitos anos, voltou para Monteiro
onde conheceu a jovem Maria Helena, com apenas 16 anos na época.
Casaram-se no dia 04 de março de 1968. Ele com 42 anos de idade e ela com 17 anos, o casamento foi realizado pelo Monsenhor João Honório, de quem Firmo Batista era grande amigo.

Da união entre firmo e Maria Helena, nasceram seis filhos: João Batista, Rosa Maria, Rejane, Rubilene, José Júnior e Raquel.

Em Monteiro, sustentava a família fazendo alianças de ouro, fotografias ampliadas e comercializando joias. No entanto sua maior paixão era a poesia.  Cantou com muitos cantadores famosos, entre eles Pinto de
Monteiro e o companheiro inseparável professor Balbino (José do Jabitacá). Era repentista dos bons e escrevendo era um fenômeno. Admirado pelos amigos, respeitado pelos colegas de profissão, querido por todos. Sempre brincalhão e acolhedor gostava de contar piadas e glosar em roda de conversas.

Um dia cantando com Cabo Edézio, um comerciante pediu um desafio malcriado. Tendo o peta aceitado o desafio, armou-se de poesia e nesse dia quase foi preso por causa dessa estrofe:

Severino Bezerra vem pagar
Para que eu derrube do trapézio
Esse cabra chamado Cabo Edézio
Que é Cabo e inventa de cantar
Bem mandado eu vou logo começar
Lhe chamando de nego corta jaca
Fedorento igualmente uma “ticaca”
Cujo verso eu recolho num pinico
E empurro uma brasa de angico
Nesse rolo de fumo Arapiraca.

Entre tantos poemas escritos por Firmo Batista, dois se destacam pela beleza e genialidade do poeta: “Jabitacá”, poema composto por dez estrofes e “Meu Pequeno Paraiso” composto por apenas duas estrofes.

JABITACÁ

Um dia estava olhando
A serra do Jabitacá
Conheci que nela está
A natureza sonhando
O vento passa de leve
Deixando trapos de neve
No corpo robusto dela
Pingos de orvalho descendo
E o rio Paraíba dizendo
A minha mãe é aquela

Jabitacá fostes dona
Da história do Sertão
Hoje teu nome ressona
Na cama da tradição
Inúmeras pedras tingidas
Com tintas desconhecidas
Desafiando a ciência
Quem te olhar diz comovido
Aqui parece ter sido
Designo da providência

Eram poucos habitantes
Pelo teu vasto Sertão
Atacava os viajantes
O tigre da região
Onça pintada e vermelha
Sangrava bode e ovelha
Nos campos do pé da serra
Quando os donos procuravam
Pelos urubus achavam
Ossos em cima da terra

Quantas selvagens bonitas
Nos teus braços não dormiram
Deixando lendas escritas
Nas pedras depois fugiram
Raça talvez dos Tupis
Tapuias, Cariris
Tupiniquins, caetés
Botocudos, Potiguaras
Guaicurus, Tabajaras
Carijós e Amorés

Do Jabitacá nasceu
O Paraíba do Norte
Grande o orgulho seu
De ter um filho tão forte
Filho que arranca braúnas
Formando escombros e dunas
Pelos Cariris afora
Levando pés de chorão
Desacatando o carão
Que canta fora de hora

Quando começa a chover
Nas “cumiadas” da serra
Ver-se o coqueiro pender
O vento varrer a terra
As umburanas caírem
As pedras rochas rugirem
Por sinal de desacato
O relâmpago faiscando
E a chuva se embalando
Na rede do verde mato

Homens maus que derramaram
Sangue humano sobre a terra
Muitos deles se abrigaram
Nas furnas da tua serra
O branco fez hospedagem
Deixando na alma selvagem
A mais sagrada memória
Na solidão comovente
Jabitacá conta a gente
Os dramas da sua história

Vai morrendo a madrugada
Morrendo o sol sertanejo
Na sua boca gelada
Aplica o primeiro beijo
Uma banda ainda escura
A outra empresta a quentura
Desaparece a frieza
O vegetal abre a rama
Nota-se um poético drama
No palco da natureza

No teu sopé jaz ainda
Vestígios dos primitivos
Recordação que finda
Coqueiros mortos e vivos
Furnas que os homens escravos
Herdaram dos índios bravos
Para vossa habitação
Ossos indígenas esperando
Ouvir a voz de comando
De Felipe Camarão

Nesta hora os animais
Conhecem a voz da natura
O peba procura mais
Se sumir na terra dura
A cobra silva encolhida
Cai urubu da dormida
Se espanta o bacurau
Se esconde a onça pintada
Pia a coruja gelada
Na galha torta de um pau.

Firmo Batista de Lima. Monteiro/PB
30/10/1973

MEU PEQUENO PARAÍSO
Tuas flores serranas virginais
No silêncio da noite adormecida
São poéticas partículas liriais
Duma tela fulgente colorida
Que conserva as imagens madrigais
Do teatro real da minha vida

O cansaço me bota pra dormir
Nem dormindo consigo te esquecer
Porque sonho e sonhando posso ouvir
Tua brisa soprar pra me aquecer
A saudade me mata sem sentir
E eu sentindo morrendo sem querer.

Firmo Batista de Lima

O poeta que adquirira doença de Chagas veio a falecer no dia 04 de junho de 1982, aos 56 anos de idade, em decorrência do agravamento da doença. Deixando um legado de poesia para todos os seus
conterrâneos e enriquecendo a nossa bela cultura nordestina, paraibana e caririzeira.

2 comentários on “Cadeira 27: Nena Gonçalves

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estes HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>