Cadeira 45: MAGNA FERNANDES

Magna Fernandes

 

 

Membro da Academia Literária
Padrinho: Luiz Gonzaga Maia

 

 

Magna Eugênia Fernandes do Rêgo, nasceu na cidade de Pau dos Ferros/RN no dia 27  de Dezembro de 1989, sendo a primogênita do casal: Francisco Eurimar Fernandes de Paiva e Apolônia Fernandes de Queiroz Paiva. O casal teve seis filhos ao todo: Magna, Adriano Leonardo, Marina Maria, Maria do Carmo, Margarida Eloiza e Marisa Aléxia. A família tem
moradia fixa no Povoado de Várzea Nova, zona rural de Encanto/RN. Logo com a dentição,
Magna passou a sofrer com queixas auditivas, onde constatou-se que era uma criança com
deficiência auditiva e os seus pais iniciaram uma carreira em prol de sua saúde. A família de
ambos os lados era bastante religiosa e aos três meses Magna foi batizada tendo como padrinhos  de batismo os tios: Elizabete Paiva e Antônio Alves, de apresentar: Lucélia e de consagrar: Inez Filha (tia materna).
Filha de pais professores, desde muito cedo Magna tomou gosto pelos estudos, ingressando na pré-escola na Escola Estadual “Justino Granjeiro” no ano de 1994, quando então tinha 4 anos. Ao chegar na primeira série, no ano de 1996, já sabia ler fluentemente e realizava pequenas produções textuais, o incentivo em casa eram os livros da biblioteca da escola de sua mãe e, mais tarde, os cordéis da coleção de seu pai.

E assim, em meio aos livros, à poesia e à natureza Magna foi crescendo e se destacando por onde passava. Porém, a primeira produção poética se deu na 6ª série, quando estudava na Escola Estadual “Cid Rosado” sendo um trabalho prescrito pela professora Aparecida Granjeiro, que veio a se tornar sua madrinha de Crisma, no ano seguinte, foi contemplada com
o primeiro lugar no concurso FEMINT, promovido pela escola, categoria poesia com o cordel
“Riquezas Nordestinas”. Conforme já prescrito, a religiosidade era uma marca da família da
poetisa, deste modo, após a sua primeira eucaristia, aos 12 anos, Magna tornou-se catequista e passou a compor diversas pastorais na sua comunidade, na Capela de Nossa Senhora das
Graças, comunidade esta formada em torno de um milagre ocorrido com a tia Graça Souza que
foi quem criou sua mãe.

A partir de então começaram as produções poéticas, com destaque às paixões da adolescência, bem como as questões revolucionárias próprias desta fase, sendo publicado o primeiro livro no ano de 2007, intitulado Miscelânea de Versos, quando na época, Magna realizava cursinho pré-vestibular. Ainda neste ano, Magna foi aprovada para o curso de Letras
na UFRN e ganhou bolsa integral através do Prouni para Psicologia, no Centro Universitário
de João Pessoa-UNIPÊ, sendo esta última a sua escolha. Assim, mudou-se temporariamente
para a capital paraibana para dividir casa com outras estudantes e lutar pela sua graduação, que ocorreu no ano de 2012 com êxito, tendo formação em Terapia Cognitivo Comportamental e Terapia Sistêmico Familiar. Também neste ano, foi contemplada com a publicação do poema “Doses de Amor” na Antologia Brasileira de Novos Poetas, por meio do prêmio Poetize. No ano seguinte, foi convidada a publicar alguns poemas no livro: “Palavra é arte: Poesia”.

Em 2013 começou a trabalhar no Centro de Referência da Assistência Social, em Francisco Dantas/RN e em 2014 iniciou os trabalhos com a psicologia clínica na Clínica Washington Faelante em Pau dos Ferros/RN. Ainda em 2014 foi convidada a trabalhar no município de Potiretama/CE e em novembro deste ano assumiu por meio de concurso público o cargo de psicóloga na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Juventude no município de Mossoró/RN, estando lotada desde então no Núcleo Integral de Apoio à Criança – NIAC “Pinguinho de Gente”, um acolhimento infantil. O ano de 2015 marcou sua realização do sonho de infância de ser professora, atuando como docente na atual Faculdade Regional
Jaguaribana (FRJ), que marcou sua carreira enquanto professora de nível superior e  pós graduação abrindo portas para outras instituições. Paralelamente, concluiu a pós-graduação em Saúde Mental pela Faculdades Integradas de Cruzeiro (FIC).

No ano de 2016 foi o seu enlace matrimonial com Francisco Clenilson de Oliveira Rêgo, na Capela de Nossa Senhora de Fátima no Sítio Várzea Velha – Encanto/RN, saindo da casa dos pais e passando a residir com o esposo no Bairro Osvaldo Januário do Rêgo na mesma cidade. Em 2017 foi aprovada no Mestrado em Letras da UERN, resgatando um antigo desejo de percorrer os corredores desta faculdade como aluna, sendo aprovada com êxito, obtendo título no ano de 2019. Também neste ano iniciou a pós-graduação em Neuropsicologia pela
UNICORP e foi aprovada em mais um concurso público, desta vez para o município de Taboleiro Grande/RN, na Secretaria de Saúde, ficando lotada no Núcleo de Apoio à Saúde da
Família (NASF).

Magna descreve-se como uma pessoa realizada, é amante da família e da Psicologia, possui uma conta no instagram @magnafernandespsi onde publica conteúdos profissionais e @magnaeugenia onde divulga suas poesias. O gosto poético sempre foi aguçado, assim como
a paixão pela leitura e escrita, ultimamente dedicou-se mais a escrita de cordéis biográficos,
servidos como homenagens às pessoas e à cultura de sua região como: vaqueiros e cana-deaçúcar.

Foi convidada a fazer parte da Academia Literária Virtual “O Clube da Poesia Nordestina” no dia 7 de Julho de 2020 e a partir de então foi agraciada com a cadeira nº 125, escolhendo como patrono o saudoso poeta encantense: Chico Quelé.

 

Patrono

Chico Quelé

 

Francisco Clemente Sobrinho, conhecido popularmente como “CHICO QUELÉ”, nasceu aos 20 dias de Julho de 1940, na cidade de Encanto – Rio Grande do Norte, filho de João Clemente da Silva e Cecilia Maria da Conceição.

Viveu sua infância e juventude na companhia de seus pais e seus 4 irmãos e 2 irmãs, dedicado ao trabalho da agricultura familiar. Desde cedo demonstrava interesse pela parte de fazer versos, poesia e cordel, era amante de cantoria entre violeiros ou repentista de viola que disputavam entre si versos improvisados. Cursou até o quarto ano primário no antigo Grupo
Escolar Joaquim Correia.

Foi tomando gosto por aquela arte que para ele mais parecia uma brincadeira, chegando a participar de um evento simples e tradicional na região realizado na semana santa conhecido
como “Queda do Judas”, no sábado de aleluia, nesse evento a brincadeira consistia em fazer
versos entre os amigos com todos os pertences Judas, envolvendo os moradores locais, atividade conhecida como “Testamento do Judas”.

Foi um jovem de vida simples e participativo na comunidade local. Casou-se aos 22 anos com a jovem Rita Urbano de Souza, professora municipal, vindo a constituir uma família com 6 filhos, sendo 3 homens e 3 mulheres, que ao longo de sua vida somaram-se ainda 3 netos, 2 netas e 2 bisnetos.

Com relação ao trabalho continuou trabalhando na agricultura familiar associando já a outras atividades na área comercial, iniciando-se como feirante na cidade de Pau dos Ferros  aproximadamente nos anos de 1970, em seguida, pelos anos de 1973 tornou-se proprietário da panificadora São Francisco seguido também de um comércio chamado “Mercearia” onde já
contava com o apoio da família nas atividades existentes.

Passados alguns anos se desfez da panificadora, mantendo ainda a mercearia e agora acrescentando uma nova atividade no ramo empresarial como empreiteiro em uma firma registrada como o nome “Empreiteira Santa Rita” voltada para atividades de construção e
serviços de estradas, rodagens e açudes.

A sua vida também foi marcada com a participação na política local, primeiro ocupando uma cadeira na câmara municipal como vereador mais bem votado e em anos seguintes como vice-prefeito na gestão do saudoso Osvaldo Januário do Rego.

Sempre dedicado a família surgiu a oportunidade de mudar-se para Natal junto a esposa e a maioria dos filhos no ano de 1997. Em Natal construiu um bom círculo de amigos no bairro Neópolis, onde fixou residência. Nessa oportunidade foram surgindo novas formas de brincar
com as palavras através de versos e poesia, sobre situações do cotidiano, despertando entre os amigos a admiração pelos versos e o entusiasmado para registra-los em um livro.

Assim, iniciou-se a organização dos escritos com a colaboração dos amigos e o apoio da família. A publicação do livro que recebeu o título “O Sonho de um Poeta” ocorreu no centro comunitário do conjunto residencial Jiqui – Bairro de Neópolis – Natal RN, em 15 de Setembro 1998 recebendo aceitação e participação dos amigos e admiradores da poesia.

Devido a complicações de saúde por conta da glicose alta, consecutivamente nos anos de 2002 e 2004 realizou amputações nas duas pernas vindo a se tornar deficiente físico. Teve seus últimos dias de vida na cidade de Natal – RN falecendo no dia 29 de novembro de 2006 por múltiplos agravos na saúde, pois tinha glicose alta, problemas renais e cardíacos. Sua vida teve como principal legado a humildade e a simplicidade sempre considerado um homem popular e de bom coração.

Cadeira 39: TROYA D´SOUZA

Troya D’Souza

 

 

Membro da Academia Literária
Padrinho:

 

 

Francisco de Assis Bento de Souza, nasceu em Santa Cruz, RN, aos 26 de abril de 1978. Filho de Gabriel Cândido Rodrigues e Tereza Lúcia Pereira de Souza, ambos agricultores.

Em sua cidade natal residiu por vinte anos. Estudou nas escolas estaduais José Bezerra Cavalcante e Izabel Oscarlina Marques. Não concluiu os estudos e em 1998 mudou-se para Natal/RN, em busca de um novo rumo para a sua vida.

Na capital onde residiu por mais de vinte anos ingressou na área da construção civil, onde atua até hoje como construtor.
Em 2010 voltou a estudar, frequentando as escolas estaduais Dr. Manoel Dantas e Mascarenhas Homem, ambas em Natal, despertando um sonho que havera deixado adormecido no passado, sua grande paixão pela poesia.

Através das redes sociais ganhou destaque no âmbito cultural, adotando o codinome de Troya D’Souza.
O poeta desde então tem trabalhado com afinco, em prol da cultura como um todo e caminhando a passos largos pelas fantásticas veredas da literatura de cordel.

Atualmente o poeta é casado, tem seis filhos e reside na cidade de Parnamirim, RN, vizinho a Natal e cerca de 118 Km da sua cidade, Santa Cruz.

Poema Biografia

Me chamo Troya, o poeta
Sou filho de Santa Cruz
Venho da chama e da luz
Assim tracei minha meta
Versejo na linha reta
Sou formado pela roça
Sou matuto da mão grossa
Minha caneta é a enxada
Meu caviar é qualhada
E meu bangalô a palhoça.

Eu nasci nessa cidade
E no passado fui embora
O presente me trouxe agora
Pra um futuro sem saudade
Aqui eu fico a vontade
Lembrando das travessuras
Quão jovem fiz mil louacuras
Fui doce, amargo e traquino
Tudo eu fiz quando menino
Na inocência mais pura.

Hoje passando os quarenta
Tenho trinta de repente
Desde cedo no batente
Sou cascavel, saramanta
Sou ribanceira que espanta
Coqueiro, tamiarana
Juazeiro, jitirana
Eu sou capão sou capote
Sou água fria do pote
Lampião e cajarana.

Sou Camarão, sou Cascudo
Sou Teodorico, Burica
Maracujá, Vila Rica
Xarel, peixinho, veludo
Selo, texto, conteúdo
Sou trova de Riachão
Sou Aderaldo, Cancão
Dona Bia, curandeira
Militana, romanceira
Sou Crisanto e sou Gastão.

Eu sou a voz do vem vem
Sou assovio de mocó
Baioneta caritó
Sou pardal, pinto, xerém
Sou fulorzinha também
Sou o nordestino forte
A religião o suporte
Nutrindo a fé do romeiro
O peregrino estradeiro
Do Juazeiro do Norte.

Sou Pipa, Genipabu
Areia Branca, Natal
Mossoró, Umarizal
Sou Redinha, Cunhaú
Ponta Negra, Muriú
Eu sou Parelhas, Sargi
Sou Extremoz, Pirangí
Eu sou a Praia do Forte
Eu sou Caiçara do Norte
Jacumã e Pitanguí.

Sou Trairí, sou Agreste
Mandacaru, barbatão
Sou Vitalino, Azulão
O Santo Arco Celeste
Eu sou o cabra da peste
Otacílio, Catingueira
Sou Fabião, Zé Limeira
Louro Branco sondoroso
Vila Nova, Zé Cardoso
Sou Romano do Teixeira.

Sou as coisas do sertão
As belezas do Nordeste
Caatinga, que reveste
A coruja, o gavião
Sou landuá, matulão
A viola e seu temores
O baião seus cantadores
Sou a casaca de couro
João de barro, besouro
E o Pajeú das Flores.

Troya D’souza

 

Patrono

 

Fabião das Queimadas

 

Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha, o poeta dos vaqueiros. Nasceu escravo na Fazenda do Coronel Zé Ferreira. Município de Santa Cruz-RN, nos idos de 1848. Começou a cantar por volta dos 10 anos, durante os trabalhos na roça. Era tocador de rabeca. Adquiriu seu instrumento aos 15 anos, com dinheiro do trabalho na roça. Começou a cantar na região, com a permissão e o incentivo de seu dono. Cantando nas casas\ de ricos, conseguiu comprar sua alforria, e também alforriar sua mãe e sua sobrinha, com quem haveria se casado e tido 15 filhos. Analfabeto, compôs diversas cancões e romances dentre eles o “Romance do boi da mão de pau”, com 48 estrofes. Que foi registrado por Luís da Câmara Cascudo em seu livro “Vaqueiros e cantadores”. Em 1999, por ocasião dos 400 anos da cidade de Natal, foi recriado por Ariano Suassuna e por Antônio Nóbrega e pela primeira vez gravado no CD “Nação potiguar”. Suas composições apresentam traços dos romances herdados da idade média.

Um poeta renomado na sua região, tornou-se bastante conhecido na capital através do Dr. Eloy de Souza. Importante divulgador da obra de Fabião das Queimadas, Eloy de Souza era irmão de Henrique Castriciano e Auta de Souza. Politico, jornalista e escritor.
Fabião morreu em 1928. aos 80 anos de idade. Vitma de um tétano. Estar sepultado na cidade de Barcelona, RN. Onde o poeta residiu por muitos anos.

Romance do Boi da Mão de Pau

Vou puxar pelo juízo
Para saber-se quem sou
Prumode saber-se dum caso
Tal qual ele se passou
Que é o boi liso vermelho
O Mão de Pau corredor

Desde em cima, no sertão
Até dentro da capitá
Do norte até o sul
Do mundo todo em gerá
Em adjunto de gente
Só se fala em Mão de Pau

Pois sendo eu um boi manso
Logrei a fama de brabo
Dava alguma corridinha
Por me ver aperiado
Com chocalho no pescoço
E além disto algemado…

Foi-se espalhando a notícia
Mão de Pau é valentão
tendo eu enchocalhado
Com as algemas nas mão
Mas nada posso dizer
Que preso não tem razão

Sei que não tenho razão
Mas sempre quero falá
Porque alé d’eu estar preso
Querem me assassinar…
Vossa mercês não ignorem
A defesa é naturá

Veio cavalos de fama
Pra correr ao Mão de Pau
Todos ficaram comido
De espora e bacalhau…
Desde eu bezerro novo
Que tenho meu gênio mau

Na serra de Joana Gomes
Fui eu nascido e criado
Vi-me morrer lá pro Salgado
Daí em vante os vaqueiro
Me trouveram atropelado…

Me traquejaram na sombra
Traquejavam na comida
Me traquejavam nos campo
Traquejavam na bebida
Só Deus terá dó de mim
Triste é a minha vida

Tudo quanto foi vaqueiro
Tudo me aperriou
Abaido de Deus eu tinha
Fabião a meu favor
Meu nego, chicota os bicho
Aqueles pabuladô

Pegaram a me aperiar
Fazendo brabo estrupiço
Fabião na casa dele
Esmiuçando por isso
Mode no fim da batalha
Pude fazê o serviço

Tando eu numa maiada
Numa hora d’amei-dia
Que quando me vi chegá
Três vaqueiro de enxurria
Onde seu José Joaquim
Este me vinha na guia

Chegou-me ali de repente
O cavalo Ouro Preto
E num instante pegou-me
Num lugá até estreito
Se os outro tiveram fama
Deles não vi proveito

Ali fui enchocalhado
Com as algemas na mão
Butado por Chico Luca
E o Raimundo Girão
E o Joaquim Siliveste
Mandado por meu patrão

Aí eu me levantei
Saí até choteando
Porque eu tava peiado
Eles ficaram mangando
Quando foi daí a pouco
Andava tudo aboiando…

Me caçaram toda a tarde
E não me puderam achar
Quando foi ao pôr-do-sol
Pegaram a se consultar
Na chegada de casa
Que história iam contar

Quando foi no outro dia
Se ajuntaram muita gente
— Só pra dar desprezo ao dono
Vamos beber aguardente
Pegaram a se consultar
Uns atrás, outro agüente

Procurei meu pasto veio
A serra de Joana Gome
Não venho mais no Salgado
Nem que eu morra de fome
Pru que lá aperriou-me
Tudo o que foi de home

Prefiro morrer de sede
Não venho mais no Salgado
No tempo que tive lá
Vivi muito aperriado
Eu não era criminoso
Porém saí algemado

Me caçaram muito tempo
Ficaram desenganado
E eu agora de-meu
Lá na serra descansado
Acabo de muito tempo
Vi-me muito agoniado

Quando foi com quatro mês
Um droga dum caçadô
Andando lá pulos matos
Lá na serra me avistou
Correu depressa pra casa
Dando parte a meu sinhô

Foi dizê a meu sinhô
— Eu vi Mão de Pau na serra
Daí em diante os vaqueiro
Pegaro a mi fazê guerra
Eu não sei que hei de fazê
Para vivê nesta terra

Veio logo o Vasconcelos
No cavalo Zabelinha
Veio disposto a pegar-me
Pra ver a fama qu’eu tinha
Mas não deu pra eu buli
Na panela das meizinha

Sei que tô enchocalhado
Com as argema na mão
Mas esses cavalo mago
Enfio dez num cordão
Mato cem duma carreira
Deixo estirado no chão

Quando foi no outro dia
Veio Antônio Serafim
Meu sinhô Chico Rodrigue
Isto tudo contra mim
Vinha mais muito vaqueiro
Só pro mode dá-me fim

Também vinha nesse dia
Sinhô Raimundo Xexéu
Este passava por mim
Nem me tirava o chapéu
Estava correndo à toa
Deixei-o indo aos boléus

Foram pro mato dizendo
O Mão de Pau vai a peia
Se ocuparo neste dia
Só em comê mé-de-abeia
Chegaro em casa de tarde
Vinham de barriga cheia

Neste dia lá no mato
Ao tirá duma “amarela”
Ajuntaram-se eles todo
Quase que brigam mor-dela
Ficaram todos breados
Oios, pestana e capela

Quem vinhé a mim percure
Um cavalo com sustança
Ind’eu correndo oito dia
As canela não me cansa
Só temo a cavalo gordo
E vaqueiro de fiança

Eu temia ao Cubiçado
De Antônio Serafim
Pra minha felicidade
Este morreu, levou fim
Fiquei temendo o Castanho
Do sinhô José Joaquim

Mas peço ao José Joaquim
Se ele vier no Castanho
Vigi não faça remô
Qu’eu pra corrê não me acanho
Nem quero atrás de mim
De fora vaqueiro estranho

Logo obraram muito mal
Em correr pro Trairi
Buscar vaqueiro de fora
Pra comigo divirti
Tendo eu mais arreceio
Dos cabras do Potengi

Veio Antônio Rodrigues
Veio Antônio Serafim
Miguel e Gino Viana
Tudo isto contra mim
Ajuntou-se a tropa toda
Na casa do José Joaquim

Meu sinhô Chico Rodrigues
É quem mais me aperriava
Além de vir muita gente
Inda mais gente ajuntava
Vinha em cavalos bons
Só pra vê se me pegava

Vinha dois cavalos de fama
Gato Preto e o Macaco
E os donos em cima deles
Papulando no meu resto
Tive pena não nos vê
Numa ponta de carrasco

Ao sinhô Francisco Dias
Vaqueiro do coroné
Jurou-me muito pega-me
No seu cavalo Baé
Porém que temia a morte
S’alembrava da muié

Vaqueiro do Potengi
De lá inda veio um
Um bicho escavacadô
Chamado José Pinun
Vinha pra me comê vivo
Porém vortô em jijum

Veio até do Olho d’Água
Um tal Antônio Mateu
Num cavalo bom que tinha
Também pra corrê a eu
Cuide de sua famia
Vá se recomendá a Deus

Veio até sinhô Sabino
Lá da Maiada Redonda
É bicho que fala grosso
Quando grita, a serra estronda
Conheça que o Mão de Pau
Com careta não se assombra

Dois fio de Januaro
Bernardo e Maximiano
Correram atrás de mim
Mas tirei-os do engano
Veja lá que Mão de Pau
Pra corrê é boi tirano

Bernardo por sê mais moço
Era mais impertinente
Foi quem mais me perseguiu
Mas enganei-o sempre
Quem vier ao Mão de Pau
Se não morrer, cai doente

Cabra que vier a mim
Traga a vida na garupa
Se não eu faço com ele
O que fiz com Chico Luca
Enquanto ele fô vivo
Nunca mais a boi insulta

Sinhô Antônio Rodrigue
Mas seu Gino Viana
Vocês tão em terra aleia
Apois vigie como anda
Se não souberam dançá
Não se metessem no samba

Vaqueiro do Trairi
Diz. Aqui não dá recado
Se ele dé argum dia santo
Todos ele são tirado
Deix’isso pr’Antonho Ansermo
Que este corre aprumado

Quando vi Antonho Anselmo
No cavalo Maravia
Fui tratando de corrê
Mas sabendo que morria
Saiu de casa disposto
Se despidiu da famia

Vou embora desta terra
Pru que conheci vaqueiro
E vou de muda pros Brejo
Mode dá carne aos brejeiro
Do meu dono bem contente
Que embolsou bom dinheiro

Adeus, lagoa dos Veio
E lagoa do Jucá
E serra da Joana Gome
E riacho do Juá
Adeus, até outro dia
Nunca mais virei por cá

Adeus, cacimba do Salgado
E poço do Caldeirão
Adeus, lagoa da Peda
E serra do Boqueirão
Diga adeus que vai embora
O boi d’argema na mão

Já morreu, já se acabou
Está fechada a questão
Foi s’embora desta terra
O dito boi valentão
Pra corrê só Mão de Pau
Pra verso só Fabião!

Fabião das Queimadas

Cadeira 37: JOSIAS MEDEIROS

Josias Medeiros

 

 

Membro da Academia Literária
Madrinha: Lúcia Silva

 

 

Josias Medeiros Moura nasceu em 23 de maio de 1970, no Distrito de santo Antônio, zona rural de Severiano Melo, interior do estado do Rio Grande do Norte (RN). É o filho primogênito do casal de agricultores José Ferreira Moura e Helena Medeiros de Moura, irmão de Josivânia,

Antônia, Maria José e João Paulo e dois irmãos adotivos: Priscila e Fernando.

Josias é MEI – Micro empreendedor individual, no setor de pizzaria, poeta é cordelista. É membro do cadastro cultural dos artistas severianenses. Divulga seu trabalho através das redes sociais e participando de apresentações culturais. É pai de Josiane, Gustavo, Vitória e Maria Cecília, casado com Julia Costa.

Membro da academia literária da poesia nordestina.

 

Email: j-medeiros-moura2017@bol.com.br

Instagram: Josias Medeiros 2022

Telefone: (84) 99880-9296

 

Patrono

Valdir Teles

Valdir Fernandes teles, poeta, cantador, nasceu em 18 de julho de 1955. Natural de livramento, no interior do estado da Paraíba (PB), passou a residir em são José do Egito, interior do Estado de Pernambuco (PE), aos 5 anos de idade. Valdir teles aguçou seu contato com a poesia entre os sítios melancias e serrinha. Desde criança acompanhava as cantorias e despertava a admiração pela arte. Valdir teles, “a metralhadora do repente” se tornou um dos principais violeiros da história da cantoria. Foi o repentista que mais levantou troféu de 1° lugar em congressos da história dos festivais. Em 1° de julho de 2020 a Assembleia Legislativa do estado do Pernambuco (ALEP), declarou Valdir teles o patrono do repente e da cantoria de viola de Pernambuco. Faleceu em São José do Egito, em 22 de março de 2020 vítima de um infarto fulminante.

Cadeira 36: JOÃO BOSCO SOARES

João Bosco

 

 

Membro da Academia Literária
Madrinha: Heloísa Graddi

 

 

João Bosco Soares dos Santos.
Rodelas – Bahia.

 

Patrono

Castro Alves

 

Castro Alves, também conhecido como “o poeta dos escravos”, está registrado na história da literatura brasileira como um dos poetas mais engajados na luta contra a escravidão. Integrante da terceira geração do romantismo, voltada às questões sociais, é autor do famoso poema “O navio negreiro”, em cujos versos sobressaem-se a indignação quanto à desumana condição a que eram submetidos os negros trazidos à força da África. Apesar do tom social de sua poesia ser sua marca registrada, o autor também notabilizou-se pelo tom amoroso

 

Antônio Frederico de Castro Alves,  nasceu em 14 de março de 1847, na pequena Curralinho, no interior da Bahia; hoje, em homenagem ao filho ilustre, essa cidade do recôncavo baiano tem como batismo o nome com o qual se eternizou o poeta romântico: Castro Alves.

Vivenciou a infância nessa localidade até ingressar, em 1854, no Ginásio Baiano, importante instituição de ensino de Salvador, onde cursou o colegial. Posteriormente a essa formação básica, ingressou, com 16 anos de idade, na Faculdade de Direito de Recife, em Pernambuco. Nesse ambiente acadêmico, entrou em contato com intelectuais que defendiam a causa abolicionista, a qual permeou sua produção poética.

Apaixonou-se, ainda nesse contexto universitário, pela atriz portuguesa Eugênia Câmara (1837-1874), para quem escreveu, em 1867, o texto dramático Gonzaga ou a Revolução de Minas, encenado em Salvador, cidade para onde regressou sem concluir o curso superior.

Em 1868, após breve passagem pela capital baiana, instalou-se em São Paulo com o objetivo de concluir o bacharelado iniciado no Nordeste. Na capital do Sudeste, estabeleceu contato com importantes intelectuais, como Rui Barbosa (1849-1923) e Joaquim Nabuco (1849-1910).

Permaneceu pouco tempo na capital paulista, pois, em razão de um acidente de caça, prática de que tinha o hábito, retornou à Bahia com o pé gravemente machucado. Apesar de ter sido operado, sua saúde fragilizou-se a tal ponto que desenvolveu um quadro de tuberculose, o qual não conseguiu resistir, falecendo em 1871, aos 24 anos de idade.

 

Contexto histórico da produção de Castro Alves

Castro Alves foi um poeta muito consciente do contexto social e político do século XIX. Era um entusiasta da luta pela liberdade e pela justiça, conceitos necessários em um país ainda marcado pelo regime escravocrata.

Integrou a terceira geração da poesia romântica, formada por poetas ligados à corrente condoreira ou hugoana, como também é chamada essa geração literária por ter recebido influência do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), em cujas obras o teor social manifesta-se de forma contundente, principalmente no romance Os miseráveis (1862).

Os condoreiros, comprometidos com a causa abolicionista e republicana, desenvolveram uma poesia voltada à exterioridade social, tendo como finalidade convencer o leitor da pertinência da causa defendida nos seus versos.

Ainda muito jovem, Castro Alves foi um admirador dos movimentos progressistas anteriores ao seu nascimento, como a independência da Bahia, ocorrida entre 1822 e 1823, e a revolta dos negros de Palmares, liderada por Zumbi (1655-1695), ocorrida entre 1694 e 1695. Além disso, viu com entusiasmo a imprensa, surgida no país, no início do século, a partir da vinda da Família Real para o Brasil, em razão de  tornar-se um importante meio difusão dos ideais libertários que agitaram todo o século XIX.

 

Obras de Castro Alves

Considerado como a última grande voz da poesia do romantismo, Castro Alves, apesar de ter morrido muito jovem, aos 24 anos, deixou uma obra significativa:

  • As espumas flutuantes (1870);
  • A cachoeira de Paulo Afonso (1876);
  • Os escravos (1883);
  • Obras completas (1921), em que consta o livro inédito Hinos do Equador.

 

“O navio negreiro”

 

O extenso poema “O navio negreiro”, que faz parte da obra Os escravos (1883), é uma das mais contundentes críticas já feitas no plano literário, no Brasil, à realidade de uma nação que foi uma das últimas a pôr fim na prática do trabalho escravo.

 

“Navio negreiro”, pintado por Rugendas.

Nesse poema são construídas imagens que remetem o leitor ao cenário desumano a que a população negra era submetida quando traficada da África para o Brasil. Essa prática persistiu no país mesmo após a aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 4 de setembro de 1850, a qual proibia a entrada de africanos escravizados. Dividido em seis partes, observa-se em cada uma delas um enfoque que contribui para a apresentação dessa triste passagem da história brasileira.

 

·         Parte I

Constituída por 11 estrofes, cada uma com quatro versos, essa parte do poema serve ao eu lírico para que ele situe o leitor no espaço marítimo, onde transcorre as ações evocadas, como se nota no seguinte trecho:

Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!

 

·         Parte II

Quatro estrofes, de 10 versos cada, compõem a segunda parte de “O navio negreiro”, momento do poema em que o eu lírico detém-se na tripulação de marinheiros que trabalha no navio, oriunda de diversas localidades da Europa.

Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

 

·         Parte III

Na terceira parte, composta por uma única estrofe de seis versos, o eu lírico inicia a exposição do quadro grotesco que se desenrola nos porões do navio:

Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!

É canto funeral! … Que tétricas figuras! …

 

·         Parte IV

Seis estrofes compõem a quarta parte de “O navio negreiro”. Nela, a voz poética intensifica a descrição das cenas desumanas a que eram submetidos os negros trazidos à força da África:

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

 

·         Parte V

Nesta parte do poema, formada por nove estrofes, cada uma com 10 versos, o leitor é remetido ao contraste entre a vida dos negros africanos em seu lugar de origem e a degradação do porão do navio, como ilustram os versos seguintes:

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d’amplidão!

Hoje… o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar…

 

·         Parte VI

As imagens construídas na última parte do poema, constituída por três estrofes de oito versos cada, servem como um questionamento ao país que se prestou a compactuar com a infâmia do process escravocrata:

Existe um povo que a bandeira empresta

P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!…

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Acesse também: Realismo – movimento literário que trouxe críticas sociais

Exemplos de poemas de Castro Alves

temática abolicionista, registrada em “O navio negreiro”, perpassa outras obras poéticas de Castro Alves. Em “Vozes d’África”, por exemplo, longo poema da obra Escravos, a denúncia à escravidão apresenta-se em forma de súplica à justiça divina, como se evidencia nestas estrofes do poema:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus? …

[…]

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que se transformara em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Nesse longo poema, cujas três estrofes exemplificam o tom que o perpassa do início ao fim, a África é alçada à condição de eu lírico. Essa personificação intensifica a denúncia à escravidão, já que o próprio continente clama a Deus ante a escravidão que vitima seus habitantes, os quais, em outros continentes, como a América, constituirão a principal força de trabalho.

O poema “As vozes d’África” continua, mesmo na contemporaneidade, ecoando como um grito em prol dos excluídos. Em 2017, por exemplo, os cantores e compositores Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte, integrantes do grupo Tribalhistas, compuseram a canção “Diáspora”, em que estabelecem um diálogo intertextual com esse a estrofe inicial de “Vozes d’África”. Ao estabelecer um paralelo com a atual crise de refugiados que afeta milhares de sírios, o grupo musical brasileiro explicita a atualidade da luta por justiça social tão recorrente na poesia de Castro Alves.

Mas não só de denúncia social é constituída a obra do poeta baiano. Em Espumas flutuantes (1870), observa-se poemas em que o eu lírico devota-se ao amor romântico, como se nota no famoso “O ‘adeus’ de Teresa”:

O “adeus” de Teresa

A VEZ PRIMEIRA que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus…
E amamos juntos… E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite… entreabriu-se um reposteiro…
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus…
Era eu… Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa…

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos… sec’los de delírio
Prazeres divinais… gozos do Empíreo…
…Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — “Voltarei! … descansa! …”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei… era o palácio em festa! …
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! … Ela me olhou branca… surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa! …

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

 

Nesse poema, observa-se, nas primeiras estrofes, a imagem de uma mulher, Teresa, apresentada como objeto de desejo de um eu lírico masculino, algo muito comum nas obras produzidas durante o movimento romântico. Ao fim de cada estrofe, por exemplo, sua voz aparece formulando um “adeus” em resposta ao “adeus” expressado pela voz masculina. Nota-se, assim, que é ele o sujeito que determina os momentos de término e de volta do relacionamento.

Capa da edição original de “Espumas flutuantes”. O único livro que Castro Alves viu ser publicado.

Entrentanto, esse tom de submissão da figura feminina é quebrado na última estrofe, quando a voz de Tereza expressa um “adeus” a seu antigo amante, o eu lírico, não em resposta a um adeus dado previamente por ele, como aconteceu nas estrofes anteriores, mas como um adeus de despedida de alguém que escolheu trilhar seu caminho junto a outra pessoa e que, por isso, põe fim, definitivamente, na relação amorosa.

Essa vertente lírico-amorosa, presente em Espumas flutuantes, embora não seja a marca crucial da poesia de Castro Alves, é prova de que o “poeta dos escravos”, cujo lirismo voltou-se contundentemente à luta por justiça social, tão necessária no século XIX e ainda hoje, também soube voltar-se à interioridade subjetiva. Castro Alves, portanto, foi um grande poeta.